Não é pela variedade de espécies botânicas, pois as não encerra, que merece ser visitada, mas pela existência mais que milenária, ou mesmo bimilenária do seu rústico arvoredo, constituído na sua maior parte por carrasqueiros - Cuercus coccifera - subidos à altura de gigantescas árvores, algumas delas de carcomidos troncos. Em fins do século XVIII, afirma o historiador do convento, Frei Manuel de Maria Santíssima (o. c., I, n. 22), que nela se admirava um sobreiro já carcomido e com fundas cavidades, cujo tronco media 20 palmos de circunferência - quatro metros e quarenta - e um carvalho com 24 palmos de grossura. O sobreiro caiu pouco depois da expulsão dos Religiosos em 1833; o carvalho continua a sua milenária existência. O seu maior braço media uns 20 metros e tinha de grossura, na saída do tronco, uma circunferência de metro e setenta. Para averiguar da idade ultra-milenária destes gigantes silvestres, basta recordar que, em 1474, os primeiros frades que inauguraram o convento, ao admirar aquele sobreiro e as suas cavidades, numa delas descobriram a imagem, venerada depois com o título de Senhora do Sobreiro" a qual mede três palmos de altura com a peanha. Que centenas de anos não eram precisas para tão profundas chagas rasgarem tal gigante!...
 Ao percorrer esta matazinha, que não foi plantada com artísticos cuidados, mas fôra um pedaço de monte, cujos arbustos cresceram à mercê da sua natureza e formaram selva, mais ao diante aproveitada pelo primeiro colono, estabelecido naquele monte, convertendo-a depois em quinta utilitária e de recreio o primeiro proprietário que no lugar se estabelecera. Uma capelinha mariana, erguida no local do antigo sobreiro, no fim do século quinze, continua a lembrar-nos o encontro da imagem milagrosa, agora venerada na sua capela da portaria conventual. Andada uma dúzia de passos frente àquela capelinha da mata, topamos, à esquerda, o antigo forno da cal que ele fornecera para o convento, nos anos de 1470-1474, convertido em devotíssima capela, com três grutas, abertas na sua circunferência, cada qual com sua imagem. A principal, à frente de quem entra, forma uma pequenina capelinha, azulejada com quadros de raro acabamento, datados do ano 1737. A imagem antiga ali venerada era a do Senhor Ecce Homo; actualmente, porque esta desaparecesse com a invasão dos republicanos em 1910, foi substituida pelo Senhor à Coluna.

    Diz um cronista franciscano - Frei Fernando da Soledade - que, no final do século dezasseis, se lia à entrada do dito fomo o seguinte soneto, inspiração da portuguesa Dona Isabel de Castro e Andrade, a quem nos referimos no primeiro parágrafo. Alude aos dois destinos daquele santuariozinho: forno que queimava pedra e a convertia em cal, e templo que acendia fogo nas almas contemplativas:
 
 

    Cheio de furiosa flama ardente, 
    A dura pedra, sendo aqui lançada, 
    Em pó miúdo e branco transformada 
    Neste fomo já foi antigamente. 

    Outra transformação mais excelente 
    Por mais suave flama é já aqui dada: 
    Antes a duras pedras costumada 
    Agora a corações de dura gente.

    Edifícios na terra então fazia; 
    Edifícios no céu levanta agora. 
    Vede a transformação daquele efeito: 

    Passou de noite escura a claro dia. 
    Com tão grande vantagem se melhora 
    Que então abrandou pedras, hoje o peito.

 

    Faleceu esta devota admiradora de Varatojo em 1595, com 65 anos de idade. Casou, como foi dito, aos 54 anos, e teve um filho e uma filha, informa o mesmo cronista.