São muitos os painéis de azulejo que ornamentam o templo conventual, a sacristia e várias capelas, todos de bom lápis, merecedores da atenção dos amadores deste género de pintura, muito usado no sul continental, por ter à mão a fábrica lisbonense do Rato, a qual, no século dezoito e princípio do século dezanove no dizer de um escritor excedeu as fábricas de Espanha. Supomo-los posteriores a 1799, data em que publicou a história do convento o P. Fr. Manuel Maria Santíssima, pois, cuidadoso como é em notar as minimas obras de arte do seu amado Seminário de Varatojo, não lhe faz referência alguma. Não será desacerto datá-los do primeiro terço do século dezanove.
 A Sacristia, por onde vamos iniciar a nossa visita de estudo, é um vasto salão de 9,60m de comprimento por 5,50m de largura e 6,50m de altura, até à cornija, sobre a qual assenta a alta abóbada de tijolo. Estava pronta em 26 de Dezembro de 1732, data da licença do Ministro Geral para celebrar missa na «capelinha da nova Sacristia». Todas as paredes livres são revestidas de quadros de azulejo, em cor azul, cujas amplas molduras impressionam de entrada os amantes desta arte, pelos traços firmes e pelo relevo das tintas. O seu conjunto lembra uma tapeçaria de arrás, tecida com trama azul.
    São de época posterior a 1791, porque são cópia de estampas reproduzidas no livro Escuela del Corazon, publicado em Madrid nesse ano. O livro é tradução castelhano do que escreveu, em latim, o sacerdote beneditino Dom Benito Haesten, feita por Frei Diego Mecolaeta, da mesma Ordem. 
    Os quadros são alegorias dos vários estados da alma nas suas ascensões para Deus. A A/ma é figurada numa donzela, e o Amor Divino num anjo. O sentido de cada pintura é expresso por uma sentença biblica, em latim, ao alto de cada painel; e, ao fundo, é traduzido por uma quadra de versos castelhanos. Aquelas sentenças são copiadas literalmente do citado livro, não porém as quadras. Serão reproduzidas do segundo tomo dessa obra? Não sabemos, por não havê-lo à mão. Mas dele seriam copiados os dois painéis que não têm original no primeiro tomo, e pertencem a mesma Escuela del Corazón, pois figuram estados místicos da Alma, no estilo dos anteriores.
    Da língua castelhana em que estão escritos aqueles versos, deduziu alguém, com certa probabilidade, que seriam executados em fábricas de Espanha: Talavera ou Sevilha. Não se compreende realmente que, se foram trabalhados em fábrica nossa, os não traduzissem, como era fácil, para o nosso idioma.
    Com esta dúvida entremos às lições da Escuela del Corazón.
    Comecemos pela parede do lado esquerdo de quem entra:

    Primeiro quadro: A Alma de pé braço esquerdo estendido e na mão, encimado por um chapéu de plumas, um coração donde pende um espelho, uma viola, um porta-moedas e outros simbolos de vaidades mundanas; com a mão direita, estendida para o Anjo, dele recebe um cutelo. Ao alto: Circuncidite praeputium cordis vestri (Deut.10,16).
    Ao fundo:

    Na Escuela del Corazón dá-se-lhe por título: Circuncisio cordis - circuncisão do coração, corte por todo o apego às vanglórias terrestres.

    Segundo quadro: A Alma sentada à sombra duma árvore, meditabunda; a certa distância, frente a ela, o Anjo de asas abertas e em atitude de fazer mira, reteza o arco para desferir sobre ela uma seta. Ao alto: Tetendit arcum suum et posuit me quasi signum ad sagitam (Thren. 2,17) 
    Ao fundo:

    Terceiro quadro: A Alma de pé, passo feito para o Anjo, na mão estendida oferece-lhe metade dum coração; por detrás dela uma mulher, com a esfera armilar, figura do mundo, sobre a cabeça, recebe com ambas as mãos a outra metade do coração, oferecida pela alma; O Anjo, de asas abertas em atitude de desferi-las e cara virada contra a Alma, com as duas mãos repele a oferta. Ao alto: Divisum est cor eorum, nunc interibunt (Oseas 10,2).
    Ao fundo:

    Intitula-se: Divisio cordis ? partilha do coração entre Deus e o mundo.

 Na parede do lado direito de quem entra:
    Primeiro quadro: A Alma prostrada no chão, mete o coração
debaixo duma prensa, cuja alavanca é activada com esforço, pelo
Anjo.
    Ao alto: D'prime cor tuum et sustine (Ecc. 2,2).
    Ao fundo:

    Tem por titulo. Cordis humiliatio - A tribulação humilha, mas não
esmaga o coração do justo.

    Segundo quadro: - Mais pequeno, sobre o arco que dá entrada ao Lavabo: A Alma, de joelhos, apresenta ao Anjo o coração a escorrer gotas de sangue.
    Ao alto: Deus mollivit cor meum (Job 23,16).
    Ao fundo:

    Tem por título: Cordis emmollitio - coração derretido com o fogo divino.

    Terceiro quadro: A Alma, de pé, como extática, estende os braços para o seu coração que, no ar, voa com duas asas; o Anjo o espera de braços abertos para ele.
    Ao alto: Quae sursum sunt quaerite, quae sursum sunt sapite.
    Ao fundo:

    Não tem original no primeiro tomo da Escuela del Corazon, mas poderiamos intitulá-lo: - Suprema aspiração, voo celebre ao Infinito Amor.

    Deste mesmo lado há, além destes, dois mais pequenos quadros, que completam a composição dos dois maiores.
    Por debaixo do primeiro quadro:
O Anjo, de pé, como estátua de fontenário, de braços abertos, a deitar pelas mãos duas bicas de água, na larga taça que lhe serve de peanha; a Alma, montada num veado, galopa, a certa distância, em subida para a fonte.
    Por debaixo do terceiro quadro. A Alma, estendida no chão, segura com a mão esquerda uma corda, e com ela é arrastada pelo Anjo com a mão esquerda, este, na direita sustenta um facho, para a qual estende a alma a sua mão direita.
    Sentido do primeiro: Como o veado sequioso, a Alma dessedenta-se na fonte do Amor Divino; do segundo, a Graça ilumina e arrasta as almas nas sendas do Amor.
    Com estas licões da Escuela del Corazon, vamos interpretar os azulejos da Igreja conventual.